Como vão as construtoras?

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Como andam as construtoras no mercado de ações? Que o Ibovespa anda mal das pernas – assim como todo o mercado de ações no planeta -, não é novidade pra ninguém. No ano, o Ibovespa já caiu mais de 20% (exatos 26,75% no momento em que escrevo), um péssimo resultado. E um dos setores responsáveis por essa queda abrupta é o imobiliário. As ações da Gafisa (GFSA3) caíram 56,72%; da PDG Realty (PDG3), 31,35%; Cyrela (CYRE3), 43,97%; MRV (MRVE3), 33,55%. A mais estável é a Eztec (EZTC3), com queda de 3,87% – uma performance louvável, tendo em vista a queda do mercado e a péssima performance das construtoras. Mas o que aconteceu?


Balanços das construtoras mostram diminuição no ritmo de crescimento

Quando examinamos o ritmo de crescimento das construtoras, fica uma constatação: o ritmo de crescimento do lucro líquido delas diminuiu bastante. Entre as empresas selecionadas – Gafisa, Cyrela, PDG, MRV e Eztec -, verifica-se a seguinte situação:

Receita líquida das construtoras é maior, mas margem líquida apresenta piora

Como o leitor pode perceber, no 2º Trimestre de 2011, a média do lucro líquido das construtoras examinadas é inferior à média do lucro líquido do 2º Trimestre de 2010. Em outras palavras, as empresas estão lucrando menos do que em 2010. Obviamente, há exceções: a Eztec, por exemplo, apresentou nos dois primeiros trimestres de 2011 um lucro líquido superior 53,44% em comparação com os dois primeiros trimestres de 2010. Já a Gafisa, por sua vez, apresentou um forte declínio – o lucro líquido dos dois primeiros trimestres de 2011 é 65% inferior ao lucro líquido obtido nos dois primeiros trimestres de 2009 – dois anos antes!
Outra maneira de enxergar esses dados é a partir do exame do ritmo de crescimento do lucro líquido:

Como o leitor pode ver, novamente os dados são desanimadores: em todos os casos, o ritmo de crescimento do lucro líquido diminuiu fortemente. Na média, o ritmo de crescimento das construtoras caiu de quase 100% para 0% no 2º Trimestre de 2011. Novamente, a empresa que aparentou estar mais estável quanto a esse quesito foi a Eztec, com um ritmo de crescimento um pouco abaixo dos últimos trimestres, mas próximo de 50%. A Gafisa teve uma forte queda (de quase 200% no ritmo de crescimento apresentado entre o 4º Trimestre de 2010 e o 4º Trimestre de 2009, para uma queda de 50% no comparativo entre o 1º Trimestre de 2011 e o 1º Trimestre de 2010. Preferi comparar iguais trimestres de cada ano (e não trimestre a trimestre), para evitar que efeitos sazonais afetassem o estudo.
Apesar disso, em todos os casos houve crescimento na receita líquida das empresas, que vêm tendo maiores receitas em 2011 do que em 2010, como mostram os seguintes gráficos:

Um leitor atento, a esta altura, deve estar estranhando uma coisa: como o lucro líquido das construtoras se estabilizou tanto se a receita líquida continuou a crescer bem? Essa aparente incongruência dos dados se deve ao fato de que os índices de eficiência operacional estão piores. Vejamos os seguintes dados:

Como você pode observar, embora a margem líquida (ou seja, o percentual da receita que se transforma em lucro) pareça estável, houve deterioração na maior parte das empresas analisadas, quando comparado ao ano de 2010 – voltando aos níveis de 2009. As exceções, novamente, são Ezetc, que apresentou melhora considerável nesse indicador, e Gafisa, que teve um forte recuo. Também a Cyrela apresentou recuo significativo em suas margens, que vêm apresentando tendência declinante desde o fim de 2009.


Acredito que esses dados explicam o péssimo momento vivido pelas construtoras. Os lucros se estabilizaram – indicando que estávamos certos quando alertamos para o esfriamento do setor da construção civil, já no início do ano – e, apesar de as receitas continuarem a se expandir, os custos de produção já começam a pressionar as construtoras. Muito provavelmente, mesmo o crescimento na receita deve estar relacionado a negócios realizados no ano passado, já que os financiamentos contratados pelos compradores se estendem por anos a fio, além de alguns financiamentos bancários do ano passado provavelmente terem gerado lucros apenas esse ano.
É importante notar, ainda, a eficiência operacional da Eztec e o declínio forte dos indicadores da Gafisa. A Cyrela também apresentou alguma piora, e PDG e MRV apresentaram performance operacional bastante razoável até aqui. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos: os próximos balanços já devem refletir a piora na crise financeira internacional. A depender da força do impacto, se a queda da demanda por imóveis continuar, é possível que vejamos queda nos preços dos imóveis ao menos em algumas regiões, como informa a teoria econômica. Até aqui, vimos uma estabilização.
* Todos os dados utilizados para gerar os cálculos foram extraídos da plataforma INI e dos sites Fundamentus e Com Dinheiro. Informo ainda que não detenho ações de nenhuma das empresas mencionadas.
 

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