Mulheres conquistam espaço e já são destaques no setor da construção civil


Por Jessica Fortes
Da Redação

Há alguns séculos era inconcebível ver uma mulher dividindo o mesmo espaço de trabalho com os homens. Criadas sempre para desempenhar papéis domésticos, o máximo que se aproximavam de canteiros de obras, por exemplo, era passando pela calçada. Ao longo dos anos, e após muitas reivindicações a história mudou, mas infelizmente as primeiras lutas foram marcadas por tragédias.

Em 8 de março de 1857, um grupo de operárias nova-iorquinas tomaram uma fábrica reivindicando melhores condições de trabalho e salários dignos. Acabaram trancadas no galpão da fábrica, que foi incendiado. Na ocasião, cerca de 130 tecelãs morreram. Assim a data foi escolhida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional da Mulher.

Felizmente, mais de 150 anos depois dessa tragédia, com muita luta as mulheres conquistaram espaço. Talvez a igualdade ainda não seja a desejada, no entanto, já vieram várias vitórias. Na construção civil, por exemplo, apesar de ser um ambiente ainda marcado pela presença masculina, elas vêm obtendo grande destaque e conquistando cada vez mais espaço.

CONSTRUÇÃO CIVIL EM TRANSFORMAÇÃO
A construção civil no Brasil passa por um cenário de transformação e uma das mais perceptíveis é a presença de milhares de mulheres desempenhando funções antes executadas apenas por homens.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), somente dos anos de 2000 a 2010 o ingresso de mulheres no setor cresceu 65%, passando de 83 mil para 1,09 milhão. A verdade é que elas estão atuando, tanto no comando das empresas, como nos canteiros de obras e até na elaboração de funções administrativas.

Na Região Metropolitana de Fortaleza, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE), há cerca de 750 canteiros de obras, onde a presença de mulheres vem ganhando espaço. A entidade, inclusive, trabalha essa questão da capacitação feminina como uma das atividades do seu Programa Qualidade de Vida na Construção, através do Projeto “Mulheres da Construção”, que tem por objetivo torná-las aptas a funções inerentes ao setor e preencher o quadro funcional das empresas.

Segundo a vice-presidente de Sustentabilidade do Sinduscon-CE, Paula Frota, muitas mulheres que se encontram no setor são oriundas do projeto. “Formamos pedreiras, carpinteiras, instaladoras hidráulicas e elétricas, totalizando 100 profissionais. Todas elas são de comunidades em situação de vulnerabilidade social. Este ano vamos trabalhar firme para a formação de mais mulheres para a construção civil”, comenta.

TOQUE FEMININO
O crescimento na contratação de mulheres no mercado de construção civil já é uma realidade. As construtoras cearenses perceberam o diferencial feminino, sobretudo, na etapa de acabamento das obras.

As operárias são preferidas na hora de tarefas que exigem mais detalhes e capricho, como no acaso dos acabamentos, emassamento de cerâmica, limpeza de esquadrias de vidro, pintura, entre outras atividades.

Só no último Feirão de Empregos realizado, em fevereiro, pelo Grupo Marquise, cinco funcionárias foram contratadas. As novas operárias participaram do processo seletivo e estão atuando no trabalho de limpeza e emassamento da obra Atlantis, empreendimento de alto padrão localizado na Beira-Mar.

Segundo Ana Cláudia Coelho, gerente de gestão de pessoas do Grupo Marquise, a tendência é aumentar a presença das mulheres, pois com o aquecimento do setor, muitos profissionais estão em falta no mercado. E elas devem ocupar essa lacuna. “Elas são muito mais eficientes nas funções finais da obra. Elas estão crescendo no mercado de trabalho, se qualificando e ocupando várias funções durante a obra”, afirma.

A gerente de desenvolvimento do Grupo BSPAR, Claudiane Moraes, também fala da escassez de mão de obra e afirma que na hora da seleção não faz diferença entre homens e mulheres. “Levamos em conta o currículo, as experiências, e o conhecimento do profissional”, explica.

QUANDO O CANTEIRO VIRA ESCRITÓRIO
A habilidade para lidar com situações tensas e a capacidade de realizar e gerenciar diversas tarefas ao mesmo tempo são algumas características do sexo feminino, responsáveis pela ascensão gradual e consistente das mulheres no ambiente corporativo.

Liana Fujita, motivada pelo fascínio das grandes transformações e soluções geradas pelo setor da construção civil, optou por seguir a carreira de engenheira civil. Com mais de 20 anos de profissão, Liana já ocupou diversos cargos na empresa Fujita Engenharia, que fundou com o irmão Carlos, assim que saiu da faculdade. Atualmente, ocupa a função de sócia e diretora técnica. Apaixonada pelos canteiros de obras, a engenheira trocou as funções administrativas da empresa, no escritório, para acompanhar de perto as obras da construtora nos canteiros.

Outro exemplo de força e dedicação, a engenheira Moelma Costa, gerente de engenharia do Grupo BSPAR, destaca o sexto sentido e o bom senso - características marcantes da figura feminina- como valores importantes, que fazem a diferença na hora de tomar decisões. “Não tenho tratamento diferenciado por ser mulher, tenho a mesma carga horária, recebo o mesmo salário. No entanto, nós temos o privilégio de agregar valores como o sexto sentido e o bom senso feminino no nosso trabalho. Somos mais organizadas, mais caprichosas e isso, muitas vezes, pode fazer uma grande diferença”, explica.

PRECONCEITO E DESAFIOS
Quando perguntadas sobre o preconceito, as entrevistadas foram enfáticas em afirmar que não existe pelo fato de ser mulher e trabalhar na construção civil. “Não sinto esse preconceito. Muito pelo contrário, sinto o apoio dentro do setor. E como já convivo nele há algum tempo, sinto-me à vontade junto aos profissionais de outras empresas, fornecedores, líderes classistas, entre outros. Acho que a palavra-chave é profissionalismo. O que importa é realizar um bom trabalho, independente de gênero”, conta Liana Fujita.

Moelma Costa gerencia um grupo de engenheiros e conta que nunca sofreu preconceito ou teve tratamento diferenciado por ser mulher. “As maiores dificuldades são as pessoas, a dupla jornada que a maioria das mulheres ainda enfrenta. Depois de um dia comandando uma equipe, chegamos em casa e somos mãe, ainda temos que cuidar da casa, ajudar nas tarefas da escola, é muita coisa. Mas não tenho do que reclamar, lutamos muito por tudo isso e somos felizes”, comenta a engenheira.

Para Thereza Neumann, presidente do Sindicato dos Engenheiros do Ceará (Senge-CE), mesmo com toda a evolução no campo trabalhista e social, as mulheres ainda têm muito que conquistar. “A realidade ainda mostra que se faz necessário muita luta e conquista em favor da igualdade e valorização da mulher que atua também na engenharia, principalmente em relação à remuneração justa, tendo como principal fator, sua capacidade produtiva”, explica.

Fonte: O Estado ce
 

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