Sonho da casa própria está mais caro?

De um lado, os consumidores. Do outro, os representantes do mercado. O primeiro discute cada vez mais a alta nos preços dos imóveis. O segundo responde que a valorização reflete o custo do que é construído. Em linhas gerais, dizem os especialistas, o sonho da casa própria não está mais caro e, sim, o custo da construção.

Para o gerente comercial da Magis Incorporações, Stênio Quinderé, o custo da obra é o verdadeiro gargalo do setor. “O grande problema é o custo da obra, que ficou muito mais caro. Os insumos aumentaram. Os preços do cimento e do aço estão absurdos. A locação de maquinário também ficou mais caro, assim como o custo com pessoal. Isso reflete no preço final. Na verdade o preço está equivalente ao que está sendo construído”, argumenta.

O fato é que nos últimos anos o mercado imobiliário vem registrando uma acelerada valorização no metro quadrado. Segundo o índice FipeZap Ampliado – que acompanha o preço do metro quadrado de imóveis anunciados para venda em 16 cidades brasileiras -   Fortaleza registrou alta de 14,10% no metro quadrado em 2013, a quinta maior alta do país. Conforme a da revista britânica The Economist, o Brasil foi a segunda maior alta entre 23 países analisados, com crescimento de 12,8% nos 12 meses até outubro de 2013.

O que tem influenciado no “encarecimento” imobiliário? Na análise de José Carlos Gama, vice-presidente da Área Imobiliária do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE), a valorização do valor venal do imóvel não tem relação apenas com a valorização dos custos de construção. “Também influencia significativamente o preço do terreno, um dos fatores de maior influência nos últimos anos para o aumento do preço da moradia, em função da velha lei da economia de oferta e procura; além disso, tem o custo do dinheiro, ou seja, os juros do financiamento para a construção, etc.”, enumera Gama.

Gama destaca, ainda, a variação, nos últimos anos, do Custo Unitário Básico (CUB) e do Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), que sofreram variações maiores que os índices oficiais de inflação, graças ao ganho real salarial que os trabalhadores têm recebido em março de cada ano. Segundo ele, os diferenciais introduzidos pelas construtoras nos novos empreendimentos dentro do princípio da sustentabilidade como energia eólica, reaproveitamento de água, medidores individuais de água também são contabilizados nos custos da construção. “Esses diferenciais, apesar de aumentar o custo inicial da edificação, reduzem substancialmente as despesas de condomínio e manutenção da unidade”, ressalta.

DEFASAGEM

Durante reunião da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) na Expo Money 2013, em São Paulo, o superintendente de Relações com Investidores do Itaú Unibanco, Geraldo Soares, afirmou que o atual contexto dos preços dos imóveis no Brasil é uma correção à defasagem do mercado imobiliário, que ficou parado por 20 anos.


Especialistas argumentam que a economia nacional deu um significativo salto na década de 2000. A mudança do cenário econômico refletiu no mercado, valorizando os imóveis. Mas, até onde seguirá essa valorização? O po-der de compra do consumidor acompanhará o crescimento acelerado do setor? Na avaliação do vice-presidente da Área Imobiliária do Sinduscon, o mercado saberá como lidar com sua própria dinâmica. “O mercado é sábio. As empresas estão atentas para minimizar o aumento de custo de forma a manter a capacidade de compra do cidadão. Para tanto estão reduzindo os desperdícios, aumentando a produti-vidade como a utilização de materiais paletizados, reduzindo os prazos de transporte na obra, usando novas tecnologias como argamassa projetada e muito mais”, detalha.

BUROCRACIA

Para o consumidor final, a burocracia pode parecer apenas uma dor de cabeça a mais. Contudo, de acordo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a burocracia no setor de

construção civil faz com que os preços de venda dos imóveis habitacionais fiquem até 24% mais caros. Entraves provocados pela excessiva burocracia são a maior causa de atrasos na entrega da obra, conforme o levantamento da consultoria Booz&Company, encomendado pela CBIC.

José Carlos Gama lembra que as

exigências ambientais de certa forma também interferem no custo da obra. “Neste caso, o custo maior é na demora e na burocracia do processo que não agrega nenhum valor ao produto. Estamos em contato permanente com a dra. Águeda Muniz, secretária da Seuma de Fortaleza, para que, sem reduzir o rigor da aprovação e exigências, possamos reduzir para, no máximo 90 dias, a

liberação das licenças ambientais, quando exigidas”, revela o vice-presidente da Área Imobiliária do Sinduscon.

PERFIL DAS EDIFICAÇÕES

O perfil de edificações residenciais mudou bastante nos últimos anos. Hoje, a área de lazer e entretenimento, projeto arquitetônico e paisagístico são critérios exigidos pelo consumidor. Isso também é revertido no custo final. Para Gama, as novas exigências são fruto da redução do espaço privado das moradias, levando para áreas comuns ambientes de estar agradável, permitindo uma interação maior entre vizinhos. “É fruto também do aumento da violência e insegurança em nossa cidade, o que faz com que o cidadão evite sair de casa para fazer sua ginástica, assistir cinema, sair para jantar com amigos. Todas estas atividades serão feitas agora no ambiente do condomínio”, aponta.

EM TEMPO

O site “Tem algo errado ou estamos ricos? (www.estamosricos.com.br)” chama atenção para as discrepâncias dos preços do mercado nacional, comparando apartamentos e residências à venda no Brasil com outros no exterior. A ideia ganhou as redes sociais, com o compartilhamento das análises entre imóveis brasileiros e do exterior, quase sempre mostrando residências luxuosas até mais baratas do que imóveis brasileiros mais simples.

Contudo, José Carlos Gama garante que o custo da construção do país

“ainda é significativamente menor” do que os de outros países. “A comparação com alguns países fica difícil de ser feita, pois são utilizados métodos diferentes de construção. Nos EUA, por exemplo, é muito comum o uso de estrutura de aço e fechamento em paredes dry wall, o que aqui, no Ceará, agora é que se começa a pensar nesta forma de

construção, como é o caso do prédio anexo ao Tribunal de Contas do Ceará, na Rua Sena Madureira”, conclui.

Fonte: O estado ce
 

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